Mel de Abelha: um potencial aliado na recuperação cognitiva após AVC 🧠🍯

🌿 Introdução

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico é uma das principais causas de incapacidade no mundo. Mesmo quando o paciente sobrevive, é comum o surgimento de comprometimento cognitivo vascular (CCV) — perdas de memória, atenção e raciocínio — que prejudicam a qualidade de vida.

Singapore Geographic, Singapore Nature, Singapore Nature Photography trigona asiática.

Um estudo clínico da Universiti Sains Malaysia (USM) investigou um possível aliado natural nesse processo de recuperação: o mel de Trigona, produzido por abelhas sem ferrão do gênero Trigona (conhecidas como abelhas Kelulut).

Essas abelhas produzem um mel rico em flavonoides, ácidos fenólicos e aminoácidos — compostos reconhecidos por suas ações antioxidantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras.


🧪 O estudo

Os pesquisadores conduziram um ensaio clínico randomizado com 48 pacientes que haviam sofrido AVC isquêmico agudo.

  • Grupo experimental (24 pacientes): recebeu 10 g de mel de Trigona duas vezes ao dia durante 12 semanas.
  • Grupo controle (24 pacientes): não recebeu suplementação.

As funções cognitivas foram medidas pelo Montreal Cognitive Assessment (MOCA) e o grau de independência pelo Modified Rankin Scale (MRS).


📈 Resultados

Após três meses de acompanhamento, os resultados foram surpreendentes:

  • O grupo que consumiu mel de Trigona apresentou aumento significativo nos escores de cognição:
  • De 20,08 → 24,33 pontos no MOCA, indicando melhora real da função mental.
  • Em comparação, o grupo controle teve melhora modesta (18,42 → 19,67 pontos).
  • Houve também melhora funcional e mais independência no dia a dia:
  • Redução do grau de incapacidade média (MRS –1,29; P < 0,001).

➡️ Em resumo, o mel de Trigona melhorou a memória, a atenção e a autonomia dos pacientes — efeitos que nenhum medicamento convencional havia mostrado de forma tão expressiva nesse período.


🔬 Como o mel pode agir no cérebro

Os autores atribuem esses benefícios à presença de compostos naturais com ação neuroprotetora:

  • Fenilalanina: estimula a produção de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), essencial para formar novas conexões neurais.
  • Flavonoides e ácidos fenólicos: reduzem o estresse oxidativo e a inflamação cerebral após o AVC.
  • Aminoácidos e minerais ajudam na regeneração celular e equilíbrio metabólico.

Além dos efeitos cognitivos, estudos anteriores já mostravam que o mel de abelhas sem ferrão melhora o humor e reduz sintomas depressivos, algo importante em pacientes pós-AVC.


🌏 O que isso significa para a meliponicultura

Este é o primeiro ensaio clínico controlado a comprovar benefícios cognitivos do mel de abelhas sem ferrão (Trigona / Heterotrigona itama) em humanos.

Esses resultados reforçam o valor terapêutico e comercial dos méis nativos, que combinam biodiversidade e saúde.
Para meliponicultores, é uma oportunidade de valorizar a produção com base científica, destacando propriedades funcionais — especialmente para consumidores que buscam produtos naturais e sustentáveis.

🐝 Assim como nossas abelhas nativas brasileiras, as Trigona mostram que o mel pode ser mais do que alimento — pode ser ciência, saúde e conservação.


🇧🇷 Parentes brasileiras da Trigona

O mel estudado vem da abelha Kelulut (Heterotrigona itama), comum na Malásia, mas essa espécie tem parentes próximas no Brasil.
Todas pertencem à tribo Meliponini, que reúne as abelhas sem ferrão — nativas e essenciais para a polinização.

Nome popularNome científicoGêneroRelação com a Trigona asiática
Arapuá ou IrapuáTrigona spinipesTrigonaParente direta — mesma linhagem da Kelulut.
TubunaScaptotrigona bipunctataScaptotrigonaGênero irmão de Trigona; produz mel fermentado e medicinal.
MandaguariScaptotrigona posticaScaptotrigonaIrmã da Tubuna, amplamente criada em meliponários.
BoráTetragona clavipesTetragonaParente próxima; mel escuro e com alto teor antioxidante.

🧬 Todas essas abelhas compartilham composição química semelhante no mel — rica em compostos fenólicos, flavonoides e enzimas naturais — o que explica por que o mel das nossas Tubunas, Mandaguaris e Borás pode ter efeitos funcionais comparáveis aos observados no mel de Trigona itama (Kelulut).


⚠️ Aviso importante

Os autores ressaltam que, apesar dos resultados promissores, o mel de Trigona deve ser visto como terapia complementar, e não substitui tratamentos médicos.
Novos estudos com mais pacientes e períodos mais longos ainda são necessários.


📚 Referência científica

Zarim, M.H.A., et al. (2025). The potential of Trigona honey as a supplementary therapy for vascular cognitive impairment in patients with acute ischaemic stroke.
Malaysian Journal of Medical Sciences, 32(5): 70–81.
https://doi.org/10.21315/mjms-05-2025-359

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