🍯 Uma colher de mel pode mudar tudo: o projeto gaúcho que quer colocar abelhas na merenda de 2,2 milhões de crianças
Imagine um cardápio escolar em que o açúcar refinado dá lugar ao mel produzido por um apicultor da agricultura familiar a poucos quilômetros da escola. É essa a aposta de um projeto debatido nesta terça-feira (3/3) na reunião da Câmara Setorial da Apicultura e Meliponicultura da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (Seapi). E os números que estão em jogo são grandes: 2,2 milhões de estudantes gaúchos do ensino básico poderiam ser beneficiados.
O mel que falta na merenda — e a lei que abre a porta
O Brasil tem uma das maiores políticas de alimentação escolar do mundo. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) atende 40 milhões de estudantes por dia, com orçamento de R$ 5,5 bilhões ao ano. E em outubro de 2025, uma mudança histórica entrou em vigor: a Lei nº 15.226/2025 elevou de 30% para 45% o percentual mínimo de recursos do PNAE destinados à aquisição direta de alimentos da agricultura familiar, o que representa um incremento superior a R$ 2,4 bilhões para fortalecer comunidades locais. REMEA
É exatamente nessa janela que o projeto gaúcho quer se encaixar. O nutricionista José Augusto Sattler, membro do Comitê Técnico-científico da Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura, apresentou o documento na reunião: a proposta é substituir o açúcar refinado por mel na merenda — um adoçante natural, nutritivo e, acima de tudo, produzido aqui dentro.
“A inclusão do mel no PNAE atinge 2,2 milhões de estudantes do ensino básico no Rio Grande do Sul e gera um impacto significativo no setor apícola. Além da valorização da agricultura familiar, há ganhos para a biodiversidade, a agroecologia e a educação ambiental”, disse Sattler durante a reunião.
O projeto não é apenas uma troca de ingrediente. Ele prevê logística, regulamentação sanitária, cuidados específicos com botulismo infantil (que impede o consumo de mel por crianças menores de 1 ano) e alinhamento com leis estaduais e municipais já existentes. Sattler apresentará o modelo no 25º Congresso Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (Conbrapi), em Florianópolis, em maio.
O RS é o maior produtor de mel do Brasil — e precisa desse mercado
O Rio Grande do Sul não chegou a este debate por acaso. O estado é o líder nacional na produção de mel, mas atravessa uma crise que ainda ecoa nas colmeias: as enchentes históricas de maio de 2024 devastaram o setor. A safra 2024/2025 deve ficar em apenas um terço da produção normal.
Criar um mercado institucional estável — com contratos anuais via PNAE — seria um salva-vidas para milhares de famílias que vivem da apicultura. São cerca de 19,6 mil produtores cadastrados na Seapi, com 438 mil colmeias declaradas em todo o estado.
A própolis do Pampa que pode virar medicamento
A reunião trouxe ainda uma revelação que merece destaque próprio. O biólogo e professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Andrés Delgado Canedo, apresentou uma pesquisa de mais de dez anos sobre a própolis produzida na região de São Gabriel, no bioma Pampa.
A descoberta é impressionante: estudos mostram que a própolis Âmbar de São Gabriel possui efeito antileucêmico comprovado em testes laboratoriais, com compostos ativos contra linhagens de células leucêmicas. Agricultura A composição química do produto é única no Brasil — diferente de todas as outras própolis já catalogadas, especialmente quanto às características antitumorais.
“Os dados obtidos — alguns deles já patenteados — mostram que a própolis do local é única, diferente das outras própolis do Brasil, principalmente quanto às características antineoplásicas”, explicou Canedo.
Agora, com recursos aprovados pela Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa do RS), a equipe vai mapear todos os municípios produtores e elaborar um dossiê técnico para solicitar a Denominação de Origem (DO) junto ao INPI. Se conseguir, será o primeiro produto com DO no Pampa gaúcho e o quarto em todo o RS.
“Se conseguirmos isso, teremos o primeiro produto com DO na região do Pampa e o quarto produto com DO no RS”, projetou o professor.
Nova liderança e um olhar renovado para as abelhas
A reunião também marcou uma virada institucional: a Câmara Setorial ganhou um novo coordenador, o professor aposentado de Apicultura da UFRGS, Aroni Sattler, e integrou formalmente a meliponicultura — a criação de abelhas nativas sem ferrão — ao seu escopo de atuação.
Não é um detalhe menor. As abelhas sem ferrão são os principais polinizadores das matas brasileiras e estão cada vez mais ameaçadas pelo desmatamento e pelo uso de agrotóxicos. Criar um mercado legal e valorizado para o mel nativo é, ao mesmo tempo, uma estratégia econômica e de conservação ambiental.
“O sucesso da apicultura e da meliponicultura no Estado se deve em parte a esse órgão”, afirmou o novo coordenador, ao convidar todos a unirem forças pela cadeia produtiva.
O que vem por aí
O próximo passo do projeto é o encaminhamento formal do documento técnico à Secretaria de Educação do RS. Em paralelo, a Câmara segue trabalhando na regulamentação da Lei Estadual nº 15.181/2018 (a política gaúcha de apicultura e meliponicultura) e na capacitação de novos produtores.
Uma colher de mel na merenda. Uma pesquisa que pode virar medicamento. Uma abelha nativa que precisa de espaço para existir, mas que também tem espaço para a apis…. Tudo isso foi debatido numa sala híbrida no início de março de 2026 — e pode mudar muito mais do que o cardápio das escolas gaúchas.



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